A EXPIAÇÃO DOS PECADOS

Eric Gordon: dívidas a quitar com o New Orleans Hornets e seus fãs

* Por Lucas Ottoni

No dia 14 de dezembro de 2011, o ótimo ala-armador Eric Gordon se tornava oficialmente jogador do New Orleans Hornets. Parte (principal) da troca que enviou o astro Chris Paul para o Los Angeles Clippers, Gordon desembarcou na Louisiana com aquela “cara de pouquíssimos amigos”. Sorrisos? Quase nenhum. Palavras? Escassas. Entusiasmo? Inexistente. Pois é, foi dessa forma que começou um casamento que, por ironia do destino ($$$), promete ser duradouro (e feliz?), tanto para a franquia quanto para o jogador. Nove meses após a “apresentação mais desanimada dos últimos tempos“, o que vemos é um Eric Gordon em dívida com o Hornets. Não apenas pelo baixo aproveitamento em quadra (míseros 9 jogos), mas também pelas atitudes longe dela. Se você está totalmente por fora do assunto, não se aflija. A partir de agora, o BH vai falar sobre essa relação – até certo ponto – conturbada entre Eric Gordon e New Orleans Hornets. E cabe dizer que a salvação de tal matrimônio (se é que irá acontecer) depende muito mais do atleta do que do time. Mas vamos voltar naquele 14 de dezembro…

Como eu dizia, o Eric Gordon se tornou jogador do Hornets e – pela fisionomia mostrada em sua apresentação – parece não ter ficado nada feliz com a mudança para New Orleans. Naquele momento, a franquia estava à deriva, sem um dono, controlada pela NBA e com a sua autonomia totalmente limitada dentro da liga. Realmente, não era um dos cenários mais animadores. Ok, não dava para obrigar o cara a sorrir para as câmeras e nem a amar a cidade e os fãs. Ele é um profissional, que está lá para jogar basquete e honrar a camiseta da organização que o paga. Eu não sei se vocês lembram, mas no primeiro jogo da última temporada, o Gordon acertou um arremesso quase no estouro do cronômetro que garantiu uma estreia vitoriosa ao Hornets, lá em Phoenix, contra o Suns (a ironia é que o mesmo Suns irá aparecer novamente no fim da nossa historinha, dessa vez com um papel bem mais relevante). Quando aquela bola caiu dentro da cesta, eu lembrei do Chris Paul e logo pensei: “O Hornets encontrou um novo líder!“. Animado com a estreia, fiquei ansioso para conferir a atuação do Eric Gordon no segundo jogo dos zangões. Só que ele não compareceu.

* Clique aqui e leia mais sobre o ala-armador Eric Gordon

Uma misteriosa lesão no joelho direito mudou completamente os rumos de um casamento que havia se iniciado de maneira promissora. A partir daí, o ex-jogador do Clippers reforçou ainda mais a sua fama de “jogador bichado”. Se vocês não sabem, apesar de ter apenas 23 anos, o Eric Gordon já possui um pequeno histórico de lesões em sua carreira e nunca conseguiu jogar uma temporada inteira e saudável. Ok, esse tipo de coisa acontece e não dá para culpar o cara por causa disso. Mas o fato é que foi justamente com essa lesão que os problemas entre Gordon e o Hornets começaram.

Imagem recorrente em 2011-12

Eu costumo dizer que um verdadeiro líder precisa ter espírito de liderança tanto dentro quanto fora de quadra. Sim, eu realmente pensava que o jovem Gordon fosse assumir um papel de liderança dentro do time do Hornets. Primeiro, por ser o jogador mais talentoso e decisivo do elenco. E segundo, para apagar a má impressão deixada em sua apática (ou seria antipática?) apresentação. Mas voltando à fatídica lesão no joelho, o Gordon até tentou jogar, só que as dores no local se intensificaram. Aí ele ficou fora de combate por umas semanas, até que alguém chegou à brilhante conclusão de que o ala-armador necessitava de uma intervenção cirúrgica para resolver de vez o problema. A operação de “limpeza” do joelho foi realizada com êxito, embora tenha custado ao Gordon 57 das 66 partidas da temporada regular. É isso mesmo, ele participou de apenas 9 joguinhos dos zangões em 2011-12, e essa ausência comprometeu seriamente a campanha da equipe. Eu não vou me alongar sobre o assunto, pois na nossa retrospectiva dos alas-armadores do Hornets a questão da lesão do Eric Gordon foi bem abordada. É só vocês lerem aqui.

Durante o período em que o Gordon passou afastado dos jogos, convém salientar algumas atitudes do jogador que deixaram os fãs, de certo modo, decepcionados. Não raras foram as vezes em que ele esteve em casa (ou em qualquer outro lugar) tuitando sobre basquete universitário, futebol americano e afins, enquanto os jogos do Hornets aconteciam. Uma dessas situações até ganhou destaque aqui no Brazilian Hornet, e eu vou relembrar um trecho só para vocês:

“Como eu escrevi, o Mr. Gordon estava em casa, repousando para a cirurgia, enquanto os seus companheiros suavam as camisetas para evitarem a nona derrota consecutiva do time no campeonato. Eis que, durante a partida, o Mr. Gordon resolveu usar o seu Twitter, isso mesmo, dar aquelas tuitadas! E ele mostrou um enorme entusiasmo com o jogo! Vejam só o que ele escreveu:

“Syracuse é um time de basquete divertido de assistir”.

Peraí? Syracuse? Isso mesmo. Basquete universitário, parceiro. O Eric Gordon estava usando a sua conta no Twitter para falar sobre o quanto ele estava gostando de assistir ao jogo entre Syracuse e Louisville, na TV. Enquanto isso, o time dele (que talvez não seja tão divertido de assistir quanto Syracuse) estava jogando e encontrando uma maneira de superar os desfalques (essa palavra, o Mr. Gordon conhece bem: desfalque) para voltar a vencer na NBA. Depois, provavelmente importunado (no Twitter) por alguns torcedores que não entendiam o que ele fazia vendo basquete universitário em meio ao jogo do seu próprio time, o Mr. Gordon resolveu postar um elogio ao seu companheiro de longa data, Chris Kaman, que estava arrasando com o Jazz”.

Eric Gordon: apenas 9 participações

Quem quiser conferir o post na íntegra, é só clicar aqui.  Então, as infelicidades do Eric Gordon em 2011-12 não ficaram restritas à quadra. Também é necessário lembrar que ele recusou uma bela oferta de extensão de contrato proposta pelo Hornets lá em janeiro – algo em torno de U$ 50 milhões por 4 temporadas. Essa negativa poderia ser encarada (na época) como um indício de que o jogador não queria permanecer em New Orleans (ou então, iria pedir bem mais dinheiro para atuar em uma franquia que não era de sua preferência). Durante o tempo em que ficou longe dos jogos, o Gordon passou a seguinte imagem para muitos fãs do Hornets: um jogador pouco comprometido com o time, infeliz em New Orleans e que só estava afim de faturar uma bolada, mesmo sem jogar. Um quadro nada legal, concordam? Pois é, só que a vida é engraçada e muda de minuto a minuto…

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Após longo e tenebroso inverno, o Eric Gordon finalmente se recuperou e retornou ao time na reta final da temporada, já em abril. Lembram que eu havia escrito que ele jogou apenas 9 partidas em 2011-12? Pois é, e desses 9 jogos, o Hornets ganhou nada menos que 6. A melhora da equipe com o retorno do Gordon foi tão grande que parece que todos os pecados foram esquecidos, e os fãs viram de perto a importância desse atleta para o sucesso dos zangões. Assim que o campeonato terminou, a pergunta que ficou no ar foi a seguinte: “Se o Eric Gordon estivesse saudável durante toda a competição, a campanha 21-45 do Hornets se transformaria em playoffs?“. Aí está uma pergunta de difícil resposta. Fácil mesmo é elogiar os 20.6 ppg que o Gordon obteve enquanto esteve em quadra e reconhecer que a presença dele foi fundamental (veja o vídeo abaixo) para que o time da Louisiana tivesse deixado uma bela impressão nas últimas partidas da temporada regular. A partir daí, a manutenção do Eric Gordon em New Orleans virou prioridade absoluta, e todos o viram como peça fundamental para o sucesso do Hornets nos anos vindouros.

Ao deixar bem claro que não pretendia abrir mão do atleta, mesmo estando ciente do seu histórico de contusões, a franquia de New Orleans lançou um recado para os possíveis interessados no Gordon. Explica-se: assim que a temporada 2011-12 terminou, o Eric Gordon se tornou um agente livre restrito, ou seja, o Hornets teria o direito de igualar qualquer oferta que o jogador recebesse de outra equipe no mercado. Portanto, o destino do jogador estaria, de um jeito ou de outro, nas mãos dos zangões. Como o GM do Hornets, Dell Demps, já havia dito que manteria o jogador a qualquer custo, os demais times não se animaram a negociar com o Gordon. Só que em toda regra há uma exceção, e é aí que surge novamente o Phoenix Suns. Vocês lembram que eu disse que a turma do Arizona voltaria no fim da nossa historinha? Pois é, o Suns apareceu no início de julho e resolveu oferecer uma fortuna ao Eric Gordon (U$ 58 milhões por 4 temporadas) cruzando os dedos para que o Hornets desistisse do jogador. Pensa que parou por aí? Antes fosse. Deram uma recepção especial para o cara, estenderam até tapete vermelho (ou seria laranja?) para ele, o “colocaram” com o uniforme do time e tentaram seduzi-lo de todas as formas (no vídeo abaixo). O Gordon realmente deve ter se sentido “a última bolacha do pacote” em Phoenix. Ah, mas vocês acham que essa tática poderia ter dado certo? Sim, poderia. E como deu.

O fato é que, assim que terminou o seu agradável encontro com o Suns, o Gordon foi imediatamente à imprensa declarar que “o seu coração agora estava em Phoenix” e pediu para que o Hornets desistisse da ideia de igualar a oferta. Não satisfeito, ele avisou que não se sentia valorizado em New Orleans e que a franquia não o tratava como ele merecia. Reclamou publicamente do fato de os zangões terem escolhido o ala-armador Austin Rivers no draft (pois ambos teoricamente atuam na mesma posição), e foi além: bradou que se o Hornets o mantivesse no elenco, ele permaneceria na Louisiana contra a sua vontade e se tornaria um funcionário infeliz. Uau! Evidentemente, tudo isso aí gerou um enorme mal-estar dentro da organização e, principalmente, entre os fãs. Aliás, se observarmos o histórico do Eric Gordon em New Orleans desde a sua chegada, nada do que aconteceu é capaz de nos causar estranheza, correto? Mas é no parágrafo abaixo que vem o “X” da questão…

As várias atitudes condenáveis e a baixíssima frequência na última temporada seriam motivos mais que suficientes para o GM Dell Demps mandar o Eric Gordon “ir plantar batatas”. Contudo, o Demps não é bobo. Ele sabe que o ala-armador é dono de um grande talento e que certamente ajudará demais o Hornets nos próximos anos. Então, nesse caso, só havia uma coisa a se fazer: engolir em seco as palavras que foram proferidas, igualar a oferta milionária do Suns e manter o jogador em New Orleans de qualquer maneira. E foi exatamente isso o que aconteceu. Apesar dos pesares, o Hornets não poderia abrir mão de um dos jovens mais talentosos da NBA. Os fãs têm todo o direito de cobrar (de forma pacífica) e até vaiar o Eric Gordon, mas a franquia não poderia cometer erros aí. Ao “segurar” o atleta, o Hornets agiu com sabedoria.

O jovem ala-armador está “preso” ao Hornets pelas próximas 4 temporadas

* Clique aqui e siga o Eric Gordon no Twitter!

Para terminar este longo post, eu não posso deixar de registrar a repentina metamorfose no discurso do Eric Gordon. Quando viu que não tinha jeito e que o seu futuro estaria atrelado ao Hornets, ele logo tratou de correr atrás do prejuízo e foi se explicar junto aos fãs. Disse que negócios são negócios, que agora está feliz e empolgado em New Orleans, que não vê a hora de a nova temporada começar, que pretende se tornar All-Star em 2013, elogiou o Austin Rivers, começou a distribuir sorrisos, etc. Isso é legal, mas está longe de ser o suficiente. Principalmente para quem jogou pouco e polemizou muito. O talentoso Eric Gordon tem os seus pecados a expiar. Ele não precisa amar a nossa franquia ou fingir o que não sente. Basta ser profissional, se manter saudável e agir como um jogador comprometido com os objetivos do time (afinal, ele será muito bem pago para isso). Esse é o único caminho para conquistar a confiança dos fãs e apagar as manchas do passado. A partir de 31 de outubro, contra o San Antonio Spurs, ele terá a oportunidade de começar a obter o perdão. Aí, talvez um dia possamos chamá-lo de “o líder do Hornets”. Agora é com ele. E com mais ninguém.

* AL-FAROUQ AMINU: Tudo leva a crer que o ala de origem nigeriana terá uma maior importância no elenco dos zangões para 2012-13. Prestes a iniciar a sua terceira temporada na NBA, o jogador vem recebendo atenção especial do técnico Monty Williams. “Al-Farouq terá um papel diferente este ano, e é importante que ele entenda que eu não estou mais olhando para ele como um jogador de primeiro ou segundo ano. Eu estou olhando para ele como um dos principais contribuintes (do elenco) este ano“, disse o treinador do Hornets ao site NOLA.COM (do jornal The Times-Picayune). Que responsabilidade, hein?

* SIGA NBA: Surge outro blog brasileiro muito legal sobre a maior liga de basquete do planeta. Até análise da offseason do New Orleans Hornets eles já fizeram. Confiram aqui.

* FORÇA TOTAL: Como vocês puderam perceber, o BH deu uma paradinha nas últimas semanas e teve pouquíssimos posts em setembro. Pois bem, eu estava com inúmeros problemas particulares para resolver e não pude me dedicar a mais nada. Mas após colocar as coisas em dia, haverá sempre um tempo livre para o nosso amado blog. Com a temporada 2012-13 chegando, vários posts e novidades estão na pauta. Não mudem de canal, ok?

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9 pensamentos sobre “A EXPIAÇÃO DOS PECADOS

  1. Caraca Lucas, que post excelente! Isso que é uma retrospectiva da relação Hornets-Gordon. Meus parabéns.

    Quantos as ferroadas…tomara que o Aminu mostre algo de bacana nessa temporada, nem que seja apenas para defender. Precisaremos, e muito, desse menino

    • Opa, obrigado! Levei uns dias para terminar este post, mas valeu a pena. Eu acabei escrevendo tudo o que queria.

      É verdade, o Aminu tem tudo para se tornar uma das forças defensivas do nosso time. E se conseguir produzir alguma coisa no ataque, já será um baita lucro.

      Abço, Ricardo!

    • Pois é, Rafael. O problema é: trocar pelo quê? Acho que o Hornets deve ir com calma e aguardar o desempenho do Gordon na próxima temporada. E se resolver trocá-lo, que seja por algo que valha a pena para a franquia, e não apenas para satisfazer a vontade ou os caprichos do jogador. Ele tem 4 anos de contrato com os zangões (e ganha um salário estratosférico), então somos nós quem damos as cartas nesse momento.

      Abço!

    • Olá, Ramon. Somos dois, meu amigo. Eu também acho as camisetas do Hornets sensacionais. Na minha opinião, são as mais bonitas de toda a NBA. Essa combinação de azul com dourado e branco é demais.

      Abço!

  2. parabens, luke. otimo texto! concordo com tudo. e eu nao tinha visto o q o suns fez pra ele nao. estenderam ate tapete pro guri. vidoe hilario.. hehe

    gordon tá devendo sim. espero q ele leve o time aos playoffs. junto com davis, rivers, vazquez, anderson, etc…..

    e mto legal o fundo novo com os calouros. parabens!!

    • Valeu, Brunão! O Suns fez o que podia, mas o Gordon acabou permanecendo em New Orleans. A única opção que ele tem agora é jogar bem e ajudar o time a voltar aos playoffs. Se ele preferir qualquer outro caminho, o Hornets está resguardado por 4 anos de vínculo. Mas eu estou confiante e acho que o Gordon vai se emendar. Não acho que ele seja um sujeito sem caráter ou sem profissionalismo; ele apenas tomou algumas atitudes infelizes. Errar é humano e acontece com todos, não é mesmo?

      Gostou do fundo novo? Que bom. Aquele fundo com parte do Chris Paul já estava totalmente fora de propósito. Os tempos são outros para o Hornets, não é mesmo?

      Abço!

  3. Pingback: FATO OU MERA COINCIDÊNCIA? | Brazilian Hornet

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